— Bom dia!
A Madeireira Guarujá respondeu com a devoção automática de quem já sabe que o cliente acordou com um plano fantástico:
“O Madeireira Guarujá agradece o seu contato. Logo estaremos dando retorno.”
Pedi orçamento para um tampo de mesa de 25mm de espessura. O mais barato, claro.
Logo veio o retorno.
— Trabalho com MDF cru de 18 milímetros. O de maior espessura — disse o vendedor.
— Ótimo! Você acredita que 18mm seja suficiente pra não empenar uma mesa de dois metros e meio?
— Alguma estrutura no meio — a resposta veio curta e direta, sem floreios.
Que maravilha! Fiquei divagando… “o tipo de homem que responde preto no branco, não filosofa, não enrola, não faz firula, só vai direto ao ponto”.
— Perfeito. Qual o valor?
— R$ 210 — disse ele.
— E o frete pro meu bairro?
— R$ 35.
— Beleza! Vamos executar então. Qual o prazo de entrega?
— Um dia.
— Até amanhã já está pronto?
— Sim, cortamos na hora.
Negócio fechado, pensei. Mas aí o perfeccionista em mim resolveu duvidar da própria decisão.
— Na tua experiência, acredita que 18mm é ok pra uma mesa desse tamanho?
— Com apoio, sim. Em vão livre, não. Vai colocar muito peso?
Expliquei que seria para refeições em família, mesa de rua, festas.
Ele deve ter imaginado meu churrasco e corrigiu o rumo:
— Temos compensado naval de 20 milímetros. R$ 355. Mas o MDF, com um cavalete no meio, não vai dar problema.
A firmeza com que ele falou “não vai dar problema” me convenceu mais do que qualquer técnica de guru de vendas da Internet.
(falando com a Dramilda)
Então dei aquele intervalo estratégico para consultar a Dramilda e explicar tudo para ela.
— Olha, amor, o homem foi direto. Nenhuma firula. Uma frase só e já me passou confiança. Quando alguém fala assim, é porque sabe o que faz. O vendedor deu duas opções muito boas, mas achei a segunda mais adequada.
Converti o que ele disse para uma linguagem que persuadiria melhor a minha esposa:
“O moço foi muito atencioso e explicou o seguinte: O compensado naval de virola veio da Amazônia com cheiro de tempo e textura de lembrança. O tipo de madeira que, quando colocado no quintal, ao ar livre, parece atrair os querubins, as borboletas e beija-flores. Os parentes ficam aguardando ansiosos pelos eventos em família: as crianças enlouquecidas esquecem seus smartphones em casa, e as rusgas entre os adultos desaparecem como um passe de mágica. Tudo isso pela singela quantia de trezentos e cinquenta e cinco. A entrega é imediata, mais rápida que o serviço das renas do Papai Noel. E o valor do frete, quase grátis, é só uma formalidade.”
Ela escutou tudo com a calma de quem já prevê o desfecho.
Olhou para mim, deu aquele meio sorriso e soltou:
— Tomara que o compensado aguente o Natal.
(retomando a conversa com o vendedor da madeireira)
Algumas horas depois, retomei a conversa com a madeireira:
— Oi! Vamos de compensado naval. Podemos prosseguir.
A resposta veio como nota fiscal de destino:
— 01 compensado naval de virola 2.50 x 1.20 x 20 mm. R$ 355. Frete R$ 35. R$ 390. Pix R$ 378.
Li aquilo como quem lê um poema minimalista.
Nessa hora, veio-me à lembrança as aulas de simplificação matemática: o homem resumiu tudo em uma linha. Até as casas decimais ele retirou, como se a exatidão fosse luxo desnecessário diante de tanta objetividade. Que eficiência! Não precisou nem valorizar o desconto.
— Quando será a entrega?
— Pode ser amanhã ou hoje à tarde?
— Hoje é melhor — respondi com ansiedade de uma criança ainda não iniciada no estoicismo.
— Ok — disse ele.
Paguei e enviei o comprovante. Pronto, mesa comprada.
E, sem perceber, ele vendeu um pouco de fé na palavra simples, essa que corta na hora e transmite a confiança de quem fala pouco, mas entrega tudo.
— Desculpe, esqueci de perguntar o teu nome.
— Sou a Bia, a sua assistente virtual. Posso ajudar em algo mais.
Zenérico
A conversa com a madeireira foi apenas o segundo capítulo. Se quiser ver o que aconteceu depois dessa conversa — e como a mesa finalmente ganhou forma — leia a terceira parte: 📖 A Mesa do Zenérico — Quando Uma Ideia Vira Mesa.
E a primeira parte está em 📖 “Toda Mesa Precisa de Uma Família” — e explica por que o Zenérico decidiu construir uma mesa antes mesmo de saber o preço da madeira.

