A Exclusividade da Comunicabilidade do Ser
Comentava sobre a dificuldade de extrair algo mais emocional do biografado.
Foi então que percebi que eu mesmo não estava ouvindo o subtexto – aquilo que se diz por baixo das palavras.
Todo o meu olhar sobre a psique humana, que poderia me ajudar a ler o invisível, eu havia deixado de lado. No fundo, eu queria ouvir diretamente da boca dele aquilo que ele não sabia dizer na linguagem que eu esperava.
Meu pai tem emoção, vive cheio de energia, conversa com todos nas reuniões, faz piadas e preenche o ambiente. Mas veio de uma geração em que o sentir se mostrava pela ação, não pela fala. Uma época em que a urgência da vida não deixava muito espaço para elaborar sentimentos.
A falha, então, era minha. Traduzir o que o mundo não consegue dizer é justamente uma das tarefas do escritor: dar nome ao que ainda não tem nome. Há tempos, quando penso no meu pai, percebo isso com clareza.
Ele sente muito, mas expressa em outro idioma. E talvez seja aí que resida a minha potência — ser aquele que ensaia traduzir o que ele, e tantos outros, vivem em silêncio; aquilo de que só Deus pode verdadeiramente dar conta: a incomunicabilidade do ser.
“O espírito do homem é a lâmpada do Senhor, a qual esquadrinha todo o mais íntimo do ser.” — Provérbios 20:27
— Vini, aquele que escreve o Zenérico.

